Umbanda
Iniciante

Itan Cosmogônico — A Origem dos Orixás

🔵 Matriz africana (iorubá). Narra como os Orixás nasceram. 🟡 Existem versões conflitantes — a transmissão oral produziu diferenças entre autores e regiões.


A estrutura da criação

Na base da cosmogonia iorubá, o céu e a terra se unem para gerar os deuses:

  • Obatalá (o céu) e Odudua (a terra) formam o casal primordial.
  • Dessa união nascem dois filhos: Aganju (a terra firme, o continente) e Iemanjá (as águas, o mar).

A partir daí, duas grandes versões disputam a paternidade dos demais Orixás — e essa divergência é, em si, um dado importante sobre como a mitologia é viva e múltipla.


Versão 1 — Orugan, o filho que amou a mãe (Édipo africano)

Nesta versão, registrada por Nina Rodrigues (Os Africanos no Brasil):

  1. Iemanjá desposa seu próprio irmão Aganju.
  2. Dessa união nasce Orugan — o ar, as alturas, o espaço entre o céu e a terra.
  3. Orugan concebe um amor incestuoso pela própria mãe. Aproveitando a ausência do pai, tenta violentá-la.
  4. Iemanjá, em desespero, foge. Perseguida pelo filho, tropeça, cai de costas e morre.
  5. Seu corpo começa a dilatar-se de forma desmesurada:
    • Dos seios enormes brotam dois rios que, mais adiante, se unem e formam uma lagoa.
    • Do ventre, que se rompe, nasce toda a linhagem dos Orixás.

Os Orixás nascidos do ventre de Iemanjá

Orixá Domínio
Dadá Vegetais
Xangô Trovão
Ogum Ferro e guerra
Olokum Mar
Olochá Lagos
Oyá Rio Niger
Oxum Rio Oxum
Obá Rio Oba
Okô / Okê Agricultura / montes
Oxóssi Caçadores
Ajê-Xalagá Saúde / riqueza
Xankpannã (Xapanã) Varíola (doenças)
Orum Sol
Oxú Lua

Na versão de Nina Rodrigues, Orugan (o filho) é quem assume a paternidade dos demais Orixás — e o triângulo amoroso divino é o primeiro da mitologia africana.


Versão 2 — Aganju, o pai legítimo

Arthur Ramos (O Folclore Negro no Brasil) apresenta a sequência de modo distinto:

  1. Do casamento de Obatalá (céu) com Odudua (terra) nascem Aganju (terra firme) e Iemanjá (água).
  2. Iemanjá desposa o irmão Aganju e tem o filho Orugan.
  3. Orugan apaixona-se pela mãe; ela foge; ele a persegue; ela cai morta.
  4. Do corpo de Iemanjá nascem os Orixás.

Mas, para Arthur Ramos:

O pai dos demais Orixás é Aganju, e não Orugan — corrigindo o que ele considera um erro de Nina Rodrigues na atribuição da paternidade.

(Ou seja: o mesmo mito, com a mesma sequência dramática, mas com conclusões genealógicas diferentes. Isso ilustra a natureza múltipla da tradição oral.)


Versão 3 — Orumilá, o adivinho traidor

Câmara Cascudo registrou outra história, envolvendo Orumilá (também chamado Ifá, o adivinho poderoso):

  1. Orumilá sai do palácio com seu séquito de Exus (seus servos).
  2. Encontra um cortejo liderado por uma mulher de beleza extraordinária.
  3. Orumilá manda um Exu perguntar quem é ela.
  4. O Exu faz a reverência (dubalê) e se apresenta como escravo de Orumilá, que deseja saber seu nome.
  5. Ela responde: “Iemanjá, rainha e mulher de Oxalá.”
  6. Orumilá a convida ao palácio. Ela, a princípio, recusa — mas um dia, aceita.
  7. Desse encontro, ninguém conta o que houve — mas Iemanjá engravida de Orumilá.
  8. Quando a criança nasce, Orumilá envia Exu Babá (o mais velho dos Exus) para verificar se o bebê tem um caroço, sinal ou mancha na cabeça — marca de paternidade.

Essa versão mostra Orumilá traindo Oxalá e, ainda, desconfiando da fidelidade de Iemanjá — deuses com ciúmes e desconfianças humanas.


O que o mito ensina

  • A criação dos Orixás nasce do encontro (muitas vezes doloroso) entre céu e terra, terra firme e água.
  • Os deuses possuem paixões, conflitos e fragilidades humanas — como na mitologia greco-romana.
  • Iemanjá aparece como a grande mãe primordial, de cujo corpo brota toda a linhagem divina.
  • A transmissão oral produz versões que divergem em detalhes, mas convergem no essencial: a água e a terra como fontes da vida.

Observações e etiquetas

Conceito Etiqueta
Cosmogonia iorubá (Obatalá + Odudua) 🔵
Iemanjá como mãe dos Orixás 🟡 (múltiplas versões)
Orugan como Édipo africano 🟡
Exus como servos de Orumilá 🟡

Ver também: Iemanja, Iemanja, Sincretismo