🟢 Contexto histórico — os cultos afro-indígenas e populares que antecederam ou influenciaram a Umbanda. 🟡 Descrições rituais variam conforme a fonte e a região.
Antes e ao redor da Umbanda, existiam no Brasil múltiplos cultos de matriz africana, indígena e mestiça. Conhecê-los ajuda a situar a Umbanda sem confundi-la com eles.
O Candomblé (e o Candomblé de Caboclo)
- Candomblé = termo que significa “barracão”; não é encontrado na África como nome de culto. No Brasil, designa o local onde os negros realizavam suas festas públicas anuais das seitas africanas.
- Derivou da necessidade de reunir, num mesmo espaço, negros de nações diferentes para cultuar vários Orixás — substituindo a aldeia africana.
- Candomblé de Caboclo = denominação para cultos sincréticos africanos com influência indígena/ameríndia; surgiu no início do século XX como passo importante na nacionalização dos cultos.
Freire Raimundo Cintra observa que, junto aos Candomblés de Caboclo, surgiram no Recôncavo Baiano os cultos de Pretos-Velhos, ligados à veneração dos antepassados — possivelmente uma “versão” dos candomblés de Eguns.
Tambor de Mina (Maranhão)
Culto de nação introduzido no Maranhão pelos negros jêje e nagô e seus descendentes:
- Religião mediúnica: os iniciados incorporam entidades ao som de tambor, agogô, triângulo e cabaça.
- Culto aos Voduns (jêje) e Orixás (nagô), e Caboclos.
- Casas históricas: Casa das Minas (a mais antiga, século XIX, culto aos Voduns, fundada por Maria Justina) e Casa de Nagô.
- São Luís chegou a ter mais de 200 terreiros denominados Tambor de Mina ou Umbanda da Mata.
Outros nomes regionais dos cultos de nação: Toré, Xangô (Nordeste), Terecô, Xambá, Batuque (Rio Grande do Sul).
A Cabula
Culto banto, já extinto, que se generalizou após a Lei Áurea e é considerado precursor das “macumbas”:
- Termo: “Cabula” derivaria de “Cabala” (deturpação).
- Estrutura: o espírito comandante chama-se Tatá; os adeptos, camanás, com sigilo absoluto; a reunião forma a Engira; o chefe é o Embanda, auxiliado pelo cambone.
- Símbolos: velas chamadas estereiras, acesas a partir do leste (em honra da calunga grande, o mar), depois oeste, norte, sul.
- Ritual: o Embanda mastiga uma raiz, bebe vinho, emite faíscas com brasas; os iniciados passam três vezes sob suas pernas (“tríplice viagem” = fé, humildade e obediência).
- Foi absorvido pelo Catimbó e pelas macumbas.
Os “espíritos” da Cabula identificavam-se como Tatá Guerreiro, Tatá Flor de Carunga, Tatá Rompe-Serra, Tatá Rompe-Ponte, entre outros.
O Catimbó (e a Jurema)
Ritual de matriz indígena + africana (Congo-Angola) + católica + kardecista, fortíssimo no Nordeste:
- Origem: os ritos da jurema foram descritos desde o século XVI; envolviam cantos, danças, bebidas, fumo, ervas e invocação de antepassados.
- Bebida: infusão de jurema (a Mimosa hostilis) com aguardente — de efeito semelhante a um enteógeno; “beber jurema” tornou-se sinônimo de reunião de catimbozeiros.
- Instrumentos: o cachimbo de canudo comprido (“marca”), a maraca e as bugias (velas).
- Dirigentes: chamados mestres (ou “mestres de mesa”); as entidades, mestres de linha — dentre as quais se destaca o Pai Joaquim (mestre negro, alegre, do refrão “asquimbamba”).
- Termos: “fazer mesa” = abrir sessão; “fumaça às direitas” = trabalho para o bem; “fumaça às esquerdas” = trabalho para o mal.
O Catimbó pouco assimilou dos Orixás; a influência do Kardecismo foi marcante. É dele que deriva a expressão “baixo espiritismo”. Em alguns lugares, recebeu nomes como Xangô, Canjerê, Toré, Xambá, Babassuê.
As Macumbas
- Origem da palavra: “macumba” (Angola) liga-se a um instrumento musical ou dança (jongo, caxambu). Palavra recente (~100 anos); João do Rio (1904) ainda chamava os cultos do Rio de “candomblés”, não “macumbas”.
- Formação: após a libertação, os Cultos de Nação fundiram-se à Cabula, ao Catimbó e à Pajelança, proliferando terreiros e mesas.
- Confusão: “macumba” passou a designar, pejorativamente, qualquer culto afro-brasileiro; até hoje, diz-se “vou à macumba” para “vou a um terreiro de Umbanda”.
Uma das tarefas dos pioneiros do Movimento Umbandista foi, justamente, separar Umbanda, Kardecismo e Macumba na cabeça do público.
Calundus e outros termos (séculos anteriores)
- Calundu (dos bantos): denominação mais frequente para as religiões de origem africana no Brasil até o século XVIII.
- Batuque / Batucajé: termo que abarcava danças coletivas, cantos, percussão, louvação aos Orixás, ritos mediúnicos e curas.
O que isso ensina
- A Umbanda não surgiu do nada: herdou um vasto repertório afro-indígena e popular.
- Candomblé, Jurema/Catimbó, Cabula, Macumba, Tambor de Mina são tradições distintas, com histórias próprias — não “ancestrais diretos” da Umbanda, mas seus vizinhos e precursores.
- A confusão terminológica (“macumba = tudo”) é um legado do preconceito, que o material deve desfazer.
Observações e etiquetas
| Conceito | Etiqueta |
|---|---|
| Candomblé de Caboclo | 🔵 |
| Tambor de Mina | 🔵 |
| Cabula | 🟡 |
| Catimbó/Jurema | 🟡 (forte no Nordeste) |
| Macumba (termo) | 🟡 (pejorativo) |
| Calundu/Batuque | 🔵 |
Ver também: Zélio Fernandino de Moraes, Sincretismo